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O valor da palavra

por Paulo Gorjão, em 30.06.14
Paulo Portas será candidato nas próximas eleições legislativas, refere o Expresso Diário. A decisão, acrescento eu, é irrevogável.

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publicado às 20:05

PS: o (des)apoio dos fundadores

por Paulo Gorjão, em 29.06.14
Um grupo de militantes fundadores do PS manifestou o seu apoio a António Costa. Olhando para a lista, o que se pode dizer é que vale o que vale e que a iniciativa se resume a Mário Soares e aos seus companheiros de estrada. Nada de novo, portanto. Acresce que nalguns casos, para azar de Costa, o apoio é assumidamente condicionado e tresanda a manobra que, mais do que apoiar, visa amarrar o candidato. Um (des)apoio, no fundo.
Moral da história?
Todos temos dias de sorte na vida. Este foi um deles para António José Seguro.

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publicado às 01:45

RIP: Morais Pires

por Paulo Gorjão, em 28.06.14

Alguém acredita (ainda) que Morais Pires sucederá a Ricardo Salgado no BES?

Não é apenas a notícia desta semana no Expresso, mas o acumular de diversos artigos ao longo do último ano. Parece-me óbvio que estão reunidas todas as condições para que o seu nome não passe no crivo do Banco de Portugal.

A crise do GES/BES - na verdade, as diversas crises, i.e. de sucessão, de resultados, et al. - parece que veio para ficar e que está ainda longe de estar controlada. Na questão da sucessão em particular, o GES pode começar a pensar num nome alternativo ao sucessor designado. Há duas opções: ou o faz a bem, ou o faz a mal. A diferença entre uma e outra é o preço que será pago em termos de destruição de valor.

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publicado às 15:50

Os problemas existenciais de Marinho e Pinto

por Paulo Gorjão, em 28.06.14

"O MPT vai permitir soluções de governo ao PS", afirma Marinho e Pinto. Uma dúvida: permitir soluções de governo ao PS é uma das preocupações centrais dos eleitores potenciais do MPT? Assumindo que assim é (e eu duvido que seja verdade), não seria preferível votar directamente no PS em vez do MPT? Qual o valor acrescentado do MPT que justifica não votar directamente no PS? Para quê votar na cópia se o eleitor pode votar no original?

Posicionando-se desta forma, o MPT - melhor dizendo, Marinho e Pinto - arrisca-se a perder a sua razão de existir, que é na minha opinião essencialmente o voto de protesto anti-sistema político. Duvido que com este posicionamento o MPT recolha um voto oriundo do PCP ou do BE, cujo eleitorado (se existir essa migração) no essencial irá para o Livre de Rui Tavares.

Um conselho gratuito para Marinho e Pinto: a cometer erros desta natureza, talvez seja prudente não renunciar ao lugar no Parlamento Europeu.

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publicado às 15:30

Especialistas: vai uma aposta?

por Paulo Gorjão, em 26.06.14

Vale a pena ler o artigo de Tim Harford, "Money where your mouth is" (FT Weekend, supl. Life & Arts, p. 21). Com a proliferação de 'especialistas' há análises e previsões para todos os gostos. No mundo do infotainment, por regra, no dia seguinte já ninguém se lembra do que foi dito na véspera, o que não quer dizer que nalguns casos essas opiniões não possam ter tido consequências concretas e por vezes nefastas. Mas se fizessem uma aposta será que os especialistas fariam a previsão na mesma? Dito de outra maneira, podendo perder dinheiro manteriam a sua previsão?

Cito a parte final do artigo de Harford: "Yet on balance, the world needs more wagers between pundits. The alternative is intolerable: a world full of confident forecasts that nobody ever bothers to verify. The betting man must be thoughtful and specific or his wallet will suffer the consequences. We should all be quicker to ask ourselves before we  open our mouths: would I be willing to bet on this?"

A primeira vez que li sobre este assunto foi em Antifragile de Nassim Nicholas Taleb (livro cuja leitura recomendo vivamente). Como quase sempre acontece, há prós e contras com as apostas, como explica Harford, mas no essencial é um desafio que me seduz, na medida em que responsabiliza e introduz um mínimo de accountability.

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publicado às 01:15

Um PS em forma de assim

por Paulo Gorjão, em 25.06.14

É curioso assistir ao debate, ou à tomada de posição interna, sobre qual deve ser o posicionamento do PS relativamente aos partidos políticos à sua esquerda e à sua direita. É evidente que existem duas visões muito distintas sobre o quadro de governabilidade, pelo menos na forma como são expressas publicamente. Os recentes resultados nas eleições europeias confirmam que o PS tem de se preocupar com um segmento do eleitorado disponível para votar à esquerda, mas que poderá não o fazer nos socialistas. Como se viu nas europeias, muitos dos cidadãos descontentes com o governo não foram captados pelo PS, tendo antes optado por votar no PCP, entre outros. O PS precisa, por isso, de tentar evitar desguarnecer a sua ala esquerda. Os apelos a uma coligação à esquerda, caso de Alberto Martins, serão um misto de convicção e de pragmatismo. É, no entanto, um cenário irrealista. O PS pode construir um discurso e uma retórica mais ancorada à esquerda, mas não é aí que estão as soluções de governabilidade, além de que, pequeno detalhe(!), essas geometrias não são exequíveis à luz dos compromissos assumidos por Portugal no âmbito do Tratado Orçamental e na sequência do PAEF.

Miranda Calha propõe (ou reconhece), em alternativa, que o PS terá de fazer convergências com os tradicionais partidos de governo, uma vez que isso é de todo impossível com o BE e o PCP. O seu discurso é mais realista nesse aspecto, de algum modo reconhecendo que é ao centro que tradicionalmente se ganham as eleições e que é também ao centro que o PS terá de governar e por isso de encontrar soluções de governabilidade. Porém, Miranda Calha tinha de introduzir uma nota de irrealismo, imagino que apenas para consumo público. Não querendo admitir (publicamente) a possibilidade de uma coligação de bloco central, Miranda Calha abre a porta, se bem percebo, a um governo minoritário do PS ancorado em acordos de incidência parlamentar, uma solução que estou absolutamente convencido que nunca passará no crivo de Belém.

Qual destas duas linhas vai triunfar?

Ainda que expressa de forma mitigada, a posição moderada de Calha parece ser hoje em dia minoritária no PS. Olhando para o que dizem António Costa e António José Seguro, a retórica oficial continua mais ancorada à esquerda, descurando assim o eleitorado moderado ao centro. Suponho que os estrategas socialistas acreditam que, na hora da verdade, o eleitorado flutuante mais ao centro acabará por votar no PS, ainda que a mensagem política lhe possa parecer inconsistente e irrealista.

Julgo que estão muito enganados e que o PSD, em devido tempo, arrasará estas inconsistências e delas tirará proveito, independentemente de quem esteja à frente do PS. Naturalmente, o PS tem - e terá no futuro - de se preocupar com o eleitorado mais à esquerda, mas não é aí que estará a vitória nas próximas legislativas. A continuar pelo actual caminho, o PS condena-se a si próprio a uma derrota anunciada.

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publicado às 16:05

Banca de amadores?

por Paulo Gorjão, em 24.06.14
Por vezes fico com a impressão que a banca portuguesa é dirigida por amadores. Bem sei que não é o caso, mas o que se tem passado com o BCP e o BES nas últimas semanas é difícil de compreender ou de justificar. Os casos são muito distintos, como é óbvio. No caso do BES a situação é mais grave e mais complexa e, admito, nem sempre fácil de gerir. No caso do BCP, a forma como tem sido gerido o aumento de capital é um desastre em termos de comunicação. No meio disto, pequenos e grandes accionistas assistem à perda de valor dos seus investimentos sem que racionalmente se justifique. E ainda falamos dos políticos...

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publicado às 16:49

Guiné-Bissau: o regresso à normalidade

por Paulo Gorjão, em 19.06.14

Esta semana tomou posse o novo Parlamento da Guiné-Bissau. Trata-se de mais um passo no regresso à normalidade constitucional depois do golpe de Estado de 2012. De um ponto de vista simbólico e formal, falta ainda a tomada de posse do novo governo e do novo Presidente da República. Estamos a assistir a um ponto de chegada que é ao mesmo tempo um ponto de partida. Um ponto de chegada na normalização da situação política e constitucional e um ponto de partida para um novo ciclo. Precisamente por isso, Portugal esteve presente na tomada de posse da nova Assembleia Nacional através do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação (SENEC). Luís Campos Ferreira disse o que havia para dizer, i.e. que Portugal está disponível para reatar o normal relacionamento bilateral e para ajudar a Guiné-Bissau na medida do possível e do desejável.

Confesso que não tinha grandes expectativas em relação a Campos Ferreira, mas que tem sido uma boa surpresa. O SENEC tem conduzido, a meu ver de forma equilibrada, o dossier da Guiné-Equatorial, e o mesmo me parece estar a acontecer com a Guiné-Bissau. Pessoalmente gostaria que o SENEC, no que a África diz respeito, tivesse uma intervenção mais pro-activa para além da lusofonia, mas admito que a escassez de recursos, nesta fase, torne a cooperação bilateral muito mais difícil.

Regressando à Guiné-Bissau, neste novo ciclo que se abre, a comunidade internacional tem o interesse e a obrigação de reforçar o seu apoio às novas autoridades civis. À luz disso, Portugal deve assumir um papel liderante nesse processo, aliás como estou certo que irá acontecer. Luís Campos Ferreira que se prepare porque, independentemente de correr bem ou mal, este dossier continuará a consumir-lhe uma fatia significativa do seu tempo.

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publicado às 22:20

Herberto Hélder: A Morte sem Mestre [2]

por Paulo Gorjão, em 19.06.14

"e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica

à mão que me administra a alma"

Herberto Helder, A Morte sem Mestre (Porto Editora, 2014), p. 26.

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publicado às 15:10

A terceira via de Costa

por Paulo Gorjão, em 18.06.14

Alguém tem de fazer o favor de explicar a António Costa que ser secretário-geral do PS é uma função um pouco mais exigente do que mandar umas bocas na Quadratura do Círculo, para deleite embevecido de José Pacheco Pereira. O escrutínio é superior e a exigência é seguramente muito maior. Acresce que um pouco de humildade, já agora, também não lhe ficaria mal.

Vindo do nada, poucos dias depois de anunciar a sua candidatura à liderança do PS, Costa de imediato descobriu uma "terceira via" entre "aumenta[r] os impostos para aumentar a receita ou faz[er] cortes dos salários para baixar a despesa". Essa "terceira via" descoberta por Costa, preparem-se, é "aumentar a riqueza". A sério?

Caramba. Mas ninguém no governo, ou na oposição, tinha a noção da importância da criação de riqueza?

Convenientemente, Costa esquece-se de precisar - com propostas específicas, meios, objectivos, calendário, et al. - como é que no curto prazo se propõe criar riqueza em níveis tais que permitam ultrapassar a dicotomia impostos vs. despesa.

Não é por nada, mas talvez fosse um bom ponto de partida não insultar a inteligência dos militantes do PS e dos portugueses em geral. É óbvio para qualquer pessoa com três dedos de testa que a criação de riqueza alivia a pressão dicotómica entre aumento de impostos e cortes nos salários. O problema, como Costa muito bem sabe - aliás como Seguro, Passos Coelho e o Zé Povinho sabem também - é que há diferentes tempos de decisão e diferentes tempos na produção de resultados.

O aumento da riqueza não se decreta por lei. Se for competente, o Governo limita-se a criar as condições necessárias para o efeito que, por sua vez, numa economia de mercado, apenas produzirão resultados a médio e longo-prazo. Isto dito, no curto-prazo, em função dos compromissos assumidos à luz do Tratado Orçamental e do PAEF, Portugal teve - e tem - metas para cumprir. As metas que obrigam a ter em conta a tal dicotomia que Costa, com passe de mágica, ultrapassa num abrir e fechar de olhos. Sejamos claros e sérios. Há diferentes tempos dentro do tempo político, no essencial impossíveis de sincronizar na apresentação de resultados.

A não ser que Costa tenha descoberto o milagre da sincronização, a quadratura do círculo, o que disse não passou de uma banalidade. Uma mão cheia de nada. É assim que pretende marcar a diferença?

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publicado às 16:15

Caber ou não caber, eis a questão

por Paulo Gorjão, em 18.06.14

O Tribunal Constitucional recusou o pedido de aclaração e justificou a sua decisão dizendo que "não cabe ao Tribunal Constitucional esclarecer outros órgãos de soberania sobre os termos em que estes devem exercer as suas competências no plano administrativo ou legislativo".

Esta justificação, note-se, é apresentada pelo mesmo Tribunal Constitucional que ainda recentemente salientou que "medidas de carácter tributário oferecem melhores garantias de fugir, à partida, a uma censura decorrente da aplicação do princípio da igualdade". É preciso muita lata...

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publicado às 14:45

Scolari: acima da espuma

por Paulo Gorjão, em 17.06.14

Num gesto amigo e digno de nota, num momento difícil Luiz Felipe Scolari entendeu dar o seu apoio público à selecção portuguesa. São gestos de generosidade e simpatia que não se esquece, ou que não se deve esquecer. Mais ainda quando, de forma cirúrgica, a poucas semanas do início do Mundial, a nossa imprensa '(re)descobriu' as suas eventuais infracções fiscais relativas ao período em que esteve ao serviço da selecção portuguesa. Acima da espuma, Scolari mostrou a sua categoria.

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publicado às 02:10

Herberto Hélder: A Morte sem Mestre

por Paulo Gorjão, em 17.06.14

"e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência,

delicadeza,

vou morrer como um cão deitado à fossa!"

Herberto Helder, A Morte sem Mestre (Porto Editora, 2014), p. 39.

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publicado às 01:55

A sobrevivência do regime

por Paulo Gorjão, em 12.06.14
Luís Amado: "A jurisprudência constitucional tem de certo modo, ignorado os compromissos assumidos com a ratificação do Tratado Orçamental, em matéria de finanças públicas. Por outro lado, a sugestão explícita no último acórdão, para que o equilíbrio orçamental se faça mais pelo ajustamento das receitas, agrava o quadro de instabilidade fiscal, que constitui um dos obstáculos mais sérios à atração de investimento e ao crescimento económico.
Por isso continuo a defender (...) a revisão cirúrgica da Constituição, que permita a sua adaptação à nova realidade europeia que desde então se nos impõe e que aquele tratado, goste-se ou não do seu conteúdo, consagra.
A minha convicção é a de que a resistência prolongada a essa realidade acabará por pôr em causa, mais cedo ou mais tarde, o próprio regime" (Visão, 12.6.2014).

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publicado às 14:25

Segundo o Banco de Portugal, entre 2014 e 2019 são necessários 4% do PIB em novas medidas de consolidação orçamental, i.e. cerca de 6,7 mil milhões de euros. Não se trata de um capricho 'neoliberal' da parte do Governo, de um desejo irracional, ou ideológico, de querer ir para além da troika. Pura e simplesmente, Portugal tem de cumprir as regras europeias inscritas no Tratado Orçamental e, nessa medida, tem de atingir um défice estrutural de 0,5% do PIB em 2019. Factos, pura e simplesmente. Regras que Portugal aceitou num passado não muito distante, Governo e PS incluídos.

Eis o pano de fundo por detrás do apelo do Presidente a um entendimento entre PS, PSD e CDS. O Programa de Assistência Económica e Financeira terminou, mas todos sabemos que a austeridade terá de continuar nos próximos anos. Repito, não se trata de um capricho do Governo, mas sim de uma decorrência dos compromissos assumidos por Portugal no plano europeu.

Perante esta realidade, o que tem o PS para dizer?

Infelizmente, como tem sido hábito, nada de muito realista ou de muito produtivo. O líder socialista prossegue a linha demagógica e irresponsável do costume. Perante a descida nas taxas de juro, António José Seguro defendeu de imediato que se devem "aliviar os sacrifícios dos portugueses". Como se Portugal, para além de umas flores de circunstância eleitoralista, estivesse em condições de abrandar de forma substancial o esforço de consolidação orçamental. Pior. O secretário-geral do PS defendeu o início de um "processo de renegociação dos termos da consolidação das contas públicas". Dito de outra maneira, na linha de António Costa, se bem percebi, Seguro quer um regime de excepção ao cumprimento das regras inscritas no Tratado Orçamental.

Ontem António Costa permaneceu em silêncio, mas na verdade nada teria para dizer que se distancie daquilo que Seguro disse. Ou seja, Costa e Seguro apenas têm para oferecer aos portugueses soluções que não dependem de si e cuja probabilidade imediata de concretização é muito diminuta. Wishful thinking, puro e duro. Portugal acaba de cumprir um programa de condicionalidade e aquilo que o principal partido da oposição tem para dizer - seja Costa, seja Seguro - é que temos de ir bater à porta dos nossos parceiros europeus para lhes dizer que não estamos em condições, nem queremos, cumprir as regras que anteriormente aceitámos. Genial, não é?

Os dois, Costa e Seguro, defendem que Portugal deve permanecer no euro, mas depois rejeitam as consequências decorrentes dessa opção. Um e outro querem os benefícios sem os custos. Naturalmente, os eleitores olham para isto e, com toda a lucidez, recusam premiar o PS com o seu voto. Um partido que é incapaz de articular uma alternativa e que ao mesmo tempo se comporta de forma irresponsável não merece a confiança dos eleitores.

Regresso ao entendimento defendido pelo Presidente. Como é que se consegue alcançar um entendimento se o PS persiste em desconversar?

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publicado às 08:00

A última que não melhora

por Paulo Gorjão, em 11.06.14

Ken Watrett (BNP Paribas): "There are three things holding back banks: lack of funding; the lack of capital; and risk aversion. The first has gone, the second is getting better but the last is not improving" (Financial Times, 10.6.2014).

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publicado às 21:35

Ainda o entendimento

por Paulo Gorjão, em 11.06.14
A não ser que a situação europeia se degrade muito, o que para já surge como improvável, parece-me mais ou menos evidente que o sucesso ou o fracasso da iniciativa do Presidente está em larga medida nas mãos do líder do PS. Assim, a questão que vale um milhão de euros é a seguinte: como é que, depois de 28 de Setembro, se altera a grelha de incentivos do secretário-geral do PS?
A promessa de eleições legislativas terá de voltar a estar em cima da mesa, se esse for um incentivo válido na altura. Veremos como evoluirão as sondagens, mas é provável que o PS, ao contrário do que sucedeu em 2013, não tenha agora muita pressa.
A escolha do próximo comissário europeu também poderá e deverá ser discutida neste contexto, admitindo o Governo porventura a escolha de um quadro do PS.
Num país muito pouco dado a este tipo de entendimento, confesso que tudo isto me parece pouco para desalojar as resistências instaladas. E embora o interesse nacional faça parte do léxico partidário, a verdade é que se trata de uma preocupação por vezes distante.
Regresso ao princípio: como alterar a grelha de incentivos do PS?
Dão-se alvíssaras a quem encontrar a resposta...

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publicado às 13:25

É possível um entendimento partidário?

por Paulo Gorjão, em 10.06.14

O Presidente da República voltou a insistir num entendimento partidário entre PS, PSD e CDS, centrado na dívida pública e nas reformas para a competitividade, a alcançar até Outubro deste ano. Puro bom senso e senso comum, dirá o leitor. Certo, mas será exequível?

O resposta honesta é que não faço a mais pequena ideia se é possível ter êxito nessa empreitada. Olhando estritamente para o passado recente seria levado a pensar de imediato que as possibilidades de um acordo são diminutas. Como todos nos lembramos, em circunstâncias muito difíceis, no ano passado esse acordo não foi possível. O que mudou desde então?

Alguma coisa, interna e externamente. Do ponto de vista externo, a pressão exercida pela troika deixou de ter o mesmo efeito. Portugal está hoje numa posição mais confortável, com algum espaço político de manobra, aliás visível na forma como publicamente a ministra das Finanças equacionou a possibilidade de prescindir da última tranche do FMI. Tal seria impensável há alguns meses, ao mesmo tempo que revela um certo desafogo e a reconquista de alguma margem de decisão, fruto em parte da almofada financeira que o Governo possui neste momento. Naturalmente, este alívio dá capacidade ao Governo para resistir, retira algum sentimento de urgência, mas não haja ilusões sobre o quadro externo. O Governo tem perfeita consciência da volatilidade externa, o que o levou, aliás, antes do final do programa da troika a tentar perceber junto dos seus parceiros europeus se seria possível Portugal beneficiar de uma rede de segurança. Do ponto de vista exterior, um acordo intra-partidário continua a ser desejado e bem acolhido, como aliás ficou claro nalguns comentários tecidos, salvo erro, por elementos das agências de rating. Ou seja, a reconfiguração do quadro exterior pode ter levado a que exista um menor sentimento de urgência, mas no essencial e na substância nada mudou: com este ou com outro Governo, para cumprir os compromissos assumidos - nomeadamente no âmbito do Tratado Orçamental - nos próximos anos Portugal continuará a ter que tomar "decisões duras".

É essencialmente no plano interno que alguma coisa mudou, ainda que não seja claro se substantivamente faz alguma diferença. Naturalmente, PSD e CDS queriam no passado e querem no presente um entendimento que inclua o PS. O acordo só não foi possível no ano passado porque o PS terá roído a corda na fase final das negociações. Nessa altura, acossado internamente por todos os lados, António José Seguro não teve a força política necessária para aceitar um entendimento, por mais vago que fosse. Desde então, Seguro venceu as eleições autárquicas e as europeias, mas viu a sua liderança abertamente contestada por António Costa. Em virtude disso, o líder do PS está hoje mais entrincheirado do que nunca.

É certo que Seguro já mostrou ser capaz de dar as cambalhotas necessárias para tentar sobreviver politicamente e que, nesta altura, o líder do PS já não tem de se anular para manter a paz interna. Isto dito, Seguro correria um risco muito elevado sem que fosse totalmente clara qual era a sua grelha de incentivos. Acresce que o pulsar profundo do PS não aponta certamente na direcção de um entendimento. Ora, numa altura em que se prepara para um combate interno sem tréguas e em que todos os votos contam, a última coisa que o líder do PS quer é perder votos de militantes e simpatizantes, nem que seja em nome do interesse nacional. Por sua vez, António Costa tem defendido um "grande consenso político e social", mas por razões óbvias parece-me que - tal como Seguro - nunca quererá avançar nesse dossier, caso conquiste a liderança do PS, antes das próximas eleições legislativas. 

Em suma, apesar dos repetidos apelos ao diálogo de Cavaco Silva, os bloqueios que existiam em 2013 por agora permanecem vivos e de boa saúde. Assim, um entendimento não é impossível, mas permanece no domínio do improvável.

 

[Adenda]

Isto dito, depois de 28 de Setembro actualizaremos (ou não) a leitura que aqui se acabou de fazer. Se Seguro conseguir relegitimar a sua liderança, a relação entre as variáveis poderá mudar e o líder do PS poderá não só ter o peso interno, mas também a grelha de incentivos que desbloqueie um entendimento. Veremos.

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publicado às 19:00

Carta aberta ao presidente do CES

por Paulo Gorjão, em 09.06.14

Caro José Silva Peneda, como sei que gosta de cartas abertas tomo a liberdade de lhe escrever uma. Li na imprensa que considera um "desafio aliciante" a possibilidade de poder vir a ser comissário europeu. Um "desafio muito interessante" noutra referência na comunicação social (Expresso em Abril). Bem sei que considera que "há [na Comissão] um clubezinho (...), que tem poder a mais e tem de ser posto na ordem". Naturalmente, a sua veia disciplinadora faz com que esteja tentado pelo desafio, ainda que neste momento não haja formalmente nenhum convite.

Ora, é precisamente porque nada está decidido - e como parece existir uma campanha em marcha a favor da sua escolha - que apelo a que reconsidere. O senhor faz muito mais falta aqui do que em Bruxelas. Na Comissão seria apenas um entre vários comissários, mas em Portugal, nesta altura, é o insubstituível presidente do Conselho Económico e Social (CES). O seu contributo no CES tem sido tão relevante que nós não nos podemos dar ao luxo de o dispensar. O que teria sido de nós sem as suas intervenções públicas - e algumas privadas, imagino - colocando, por diversas vezes, um freio ao Governo?

A tudo isto há que juntar preocupações, diria, mais mundanas. Se o senhor se for embora, num país pouco dado a essa tradição, quem nos continuaria a escrever as cartas abertas aos ministros europeus?

Como vê, também nisso o senhor é insubstituível.

Repito o meu apelo: o senhor não pode ir para Bruxelas. Diria até que, como qualquer bom timoneiro, tem o dever de não abandonar o barco e de se manter vigilante no CES, pelo menos enquanto este Governo perdurar. Quer desafio mais aliciante do que este?

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publicado às 12:45

PS: o lado pessoal e as suas repercussões

por Paulo Gorjão, em 07.06.14

Joe Fox: It wasn't... personal.

Kathleen Kelly: What is that supposed to mean? I am so sick of that. All that means is that it wasn't personal to you. But it was personal to me. It's *personal* to a lot of people. And what's so wrong with being personal, anyway?

Joe Fox: Uh, nothing.

Kathleen Kelly: Whatever else anything is, it ought to begin by being personal.

 

No filme You've Got Mail, Joe Fox (Tom Hanks) é o proprietário de uma grande cadeia de livrarias que leva a pequena livraria de bairro de Kathleen Kelly (Meg Ryan) à falência. Fox tenta justificar sem sucesso as suas decisões como actos de gestão e de investimento puramente racionais. Se preferirem uma outra citação menos cor-de-rosa, num outro diálogo igualmente conhecido, como diria Michael Corleone, em The Godfather, it's not personal, Sonny. It's strictly business

Olhando para o actual momento do PS, António Costa segue a mesma linha argumentativa de Joe Fox ou de Michael Corleone. Não há nada de pessoal na sua conduta: "Não tenho nenhum problema pessoal com António José Seguro". Trata-se estritamente dos negócios da política, poderia ter acrescentado. Como seria de esperar, Seguro rejeita este enquadramento. Como diria Kathleen Kelly, para ele foi - e é... - muito pessoal. Assim se percebe e enquadra a sua crítica à "ambição pessoal" de Costa.

De certa forma, há algumas parecenças entre a actual situação entre Seguro e Costa com o episódio protagonizado por Mário Soares e Manuel Alegre nas eleições presidenciais de 2006. Na altura, Soares foi duramente punido do ponto de vista eleitoral, não diria que foi sobretudo por este motivo, mas em todo o caso terá tido certamente algum peso.

António José Seguro sabe que há um juízo de valor moral que os militantes do PS e os portugueses em geral não deixarão de fazer relativamente ao comportamente de António Costa e, nessa medida, calculo que não deixará cair o tema no esquecimento. Por sua vez, Costa tem perfeita consciência que esse é um terreno de batalha onde dificilmente terá qualquer hipótese de êxito, pelo que tem todo o interesse em prometer que não fará "ataques pessoais".

Devo dizer que, numa linha argumentativa adaptada de Hans Morgenthau e de um outro contexto, em termos abstractos, não me choca que um político possa ter uma conduta que viola princípios morais. Dito de outra forma, o comportamento de um político pode ser aparentemente imoral, sendo no entanto politicamente legítimo se com isso se salvaguardar um bem superior. Os fins poderão justificar os meios, bem sei que esta questão é particularmente controversa. A pergunta a colocar é a seguinte: Costa estará a salvaguardar um bem superior? A eventual possibilidade de ganhar as eleições em 2015 vale este preço?

Não me choca, portanto, que por razões diversas, com claro killer instinct, no momento certo António Costa tenha dado uma facada nas costas de Seguro. Admito que possa chocar outras pessoas, como é óbvio. Como em tudo na vida, há prós e contras. Um custo desta estratégia do cuco é que, a partir de agora, Costa tornou-se num agente político muito menos confiável, dentro e fora do PS.

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publicado às 17:10

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