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Seguro: o contra-ataque

por Paulo Gorjão, em 31.05.14

António José Seguro anunciou hoje a realização de eleições primárias e esclareceu que não se demitia, como aliás se esperava. Pelo meio tirou mais um ou dois coelhos da cartola, como por exemplo a reforma da lei eleitoral, uma promessa já com uma longa história mas que não posso deixar de elogiar (a propósito, ler este meu texto velhinho). O secretário-geral do PS corrige, deste modo, a reacção inicial de entrincheiramento e parte para o ataque, o que deveria ter feito desde o primeiro minuto.

As iniciativas de Seguro são positivas e um passo na direcção certa. Pecam por tardias, mas espero que façam o seu caminho. Espero igualmente que o PSD, naquilo que dele depender, contribua para os consensos necessários e que viabilize as reformas que urge fazer.

E se da crise no PS surgisse um conjunto de dinâmicas que permitisse ultrapassar as resistências à reforma do sistema político?

Sim, acredito em fadas e gnomos, em duendes e no Pai Natal.

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publicado às 13:40

Seguro: Qual é a pressa?

por Paulo Gorjão, em 30.05.14

Escrevi aqui que o "actual líder do PS não pode deixar de aceitar o repto de Costa e de partir para uma clarificação interna. O contrário seria um suicídio em lume brando". As primeiras reacções de elementos da sua equipa foram no sentido de resistir, custe o que custar, seguir a via estatutária, bloquear. Um desastre, em suma. Goste ou não, Seguro não tem alternativa.

Adiante. Não sei se Seguro conseguirá resistir a António Costa, mas na substância pouco interessa. As (poucas) hipóteses que teria de vencer as legislativas em 2015 terminaram no rescaldo destas europeias. A sua liderança está minada até aos alicerces: se Seguro não é credível para sectores importantes do PS, dificilmente o será para a população em geral. Esta percepção dificilmente mudará.

Nunca pensei - erro crasso de análise da minha parte - que Costa avançasse contra Seguro, empurrado ou não por terceiros, forçado ou não a isso. O que interessa é que avançou. Trata-se de uma má notícia para o PSD?

Não sei. Como sempre, há prós e contras. Costa não é deputado, pelo que não terá a tribuna parlamentar para defrontar directamente o primeiro-ministro. Acontece que Passos Coelho também não era deputado e tal não o impediu de ascender a primeiro-ministro. Limita-o, mas obviamente que não o impede de fazer uma oposição eficaz. Globalmente, Costa parece ter outra espessura política, mas nada substitui o duro teste da realidade. Se conseguir derrotar Seguro - veremos... - Costa ascende à liderança do PS com enormes expectativas em pano de fundo, o que constitui uma faca de dois gumes. Estar na Quadratura do Círculo, a opinar por fora, não é a mesma coisa que assumir as responsabilidades formais de liderar o PS. Como secretário-geral Costa sentirá muitas das limitações que Seguro sentiu, impostas pelas circunstâncias externas e internas. Seguro não encontrou até hoje respostas convincentes. Seria, será, diferente com Costa?

Regresso a Ortega y Gasset...

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publicado às 12:00

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay

por Paulo Gorjão, em 28.05.14

Como o passado recente demonstra, ser líder do PS ou do PSD na oposição é um exercício de alto risco. Um e outro são máquinas trituradoras de líderes. Desde a adesão de Portugal à UE em 1986, i.e. em 29 anos, o PS teve seis líderes e o PSD teve nove. Nenhum perdeu a liderança enquanto exercia as funções de primeiro-ministro (PM). Dito de outra maneira, a instabilidade nas lideranças está toda concentrada nos momentos de oposição.

Vamos aos factos:

Enquanto Cavaco Silva foi PM, a liderança do PS rodou pelas mãos de Mário Soares, Vítor Constâncio, Jorge Sampaio e António Guterres. No período em que Guterres esteve à frente do governo, o PSD foi liderado por Fernando Nogueira, Marcelo Rebelo de Sousa e José Manuel Durão Barroso. No consulado de Durão Barroso e Pedro Santana Lopes, o PS conheceu dois líderes: Ferro Rodrigues e José Sócrates. E quando Sócrates ascendeu à liderança do governo, o PSD triturou Luís Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e Manuela Ferreira Leite, até chegar a vez de Pedro Passos Coelho.

Há um claro fio condutor e uma relação de causalidade entre estar na oposição e a instabilidade nas lideranças, uma vez que a mesma não ocorre quando se exerce o poder. O problema, por isso, não está seguramente na personalidade ou nas qualidades políticas do líder, em divergências programáticas ou de outra natureza, mas sim nas expectativas existentes quanto às hipóteses de conquista do poder.

De certo modo, a crise em curso no PS não surpreende. Olhando para os dados fornecidos pelo passado recente, a surpresa seria, por assim dizer, se António José Seguro, na oposição, conseguisse resistir quatro anos à frente do PS sem qualquer desafio à sua liderança. Em bom rigor, sobre o futuro, o passado diz-nos que Seguro dificilmente chegará a 2015 à frente do PS. Uma leitura excessivamente determinista para o meu gosto, como confirma a citação de Ortega y Gasset no topo deste blogue. Mas, sendo ou não excessivamente determinista, estará errada?

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publicado às 17:15

Os 12 mandamentos

por Paulo Gorjão, em 27.05.14
1. Ainda bem que no Domingo se introduziu no léxico político-partidário a palavra 'empastelamento'. Está a ser muito útil. PS está empastelado.

2. Costa, o analista e comentador, tramou Costa, o político.

3. Termine como terminar, este processo no PS vai dar tantas munições ao PSD...

4. Seguro quer eleições antecipadas, mas não antecipa eleições internas? #fail

5. Seguro ainda não contou bem as espingardas e enqto faz as contas manda Costa recolher assinaturas. Ou talvez o contrário?

6. As sardinhas já estão na grelha e a carne a assar. Não tenho ideia que Costa tenha saído muito de Lisboa. 1/2

7. Seguro em contrapartida conhece a malta das distritais, concelhias e secções até à terceira geração. 2/2

8. Seguro vs. Costa: tudo deve mudar para que tudo fique como está. Lampedusa era do PS.

9. Era só para dizer que a sondagem de ontem já está desactualizada e que o PSD segue agora à frente do PS.

10. Ninguém contesta as posições políticas/ideológicas de Seguro, mas sim a sua capacidade de fornecer tacho.

11. O PS está unido.

12. Na disputa Costa/Seguro o apoio de Capucho será decisivo.

 

(Breve resumo dos meus tweets do dia. Foto daqui.)

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publicado às 20:05

As responsabilidades de António Costa

por Paulo Gorjão, em 27.05.14

António Costa abriu a porta a uma eventual candidatura à liderança do PS. Não me parece ainda totalmente clara a situação, nomeadamente porque aparentemente é suposto ter lugar amanhã uma reunião entre Seguro e Costa. Na última vez em que houve reuniões, Costa obteve de Seguro contrapartidas e recuou. Desta vez será diferente?

Devo dizer que este eventual avanço de Costa, a confirmar-se, é para mim uma total surpresa. Repito, a confirmar-se. Percebo que Costa tem o caminho para as presidenciais tapado pelas recentes declarações de Guterres e, por isso, esta é a alternativa que lhe resta. Mas tenho de admitir que sempre o achei demasiado medroso e excessivamente calculista. Cá estou para reconhecer que me enganei se, de facto, Costa avançar para a disputa da liderança.

Imagino que as últimas horas foram marcadas por uma intensa contagem de espingardas. Independentemente das contas, Seguro certamente não abdicará da sua liderança sem dar luta. Pouco interessa se estatutariamente Seguro está blindado. O actual líder do PS não pode deixar de aceitar o repto de Costa e de partir para uma clarificação interna. O contrário seria um suicídio em lume brando.

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publicado às 13:25

Um governo de Bloco Central à espreita

por Paulo Gorjão, em 26.05.14

Esta sondagem, divulgada pela TVI, parece querer confirmar, tal como escrevi há oito meses atrás (e antes disso numa primeira referência em Julho de 2013), que caminhamos para um cenário em que será impossível fugir a um governo entre PS e PSD, por esta ou pela ordem inversa. Na altura levantei a dúvida se incluiria o CDS. Se se confirmar a sua quase extinção, como é óbvio, o mais provável é que fique de fora.

Um governo de Bloco Central, mais do que uma opção, será uma necessidade, imposta aos partidos do arco do poder. É ainda muito cedo para antecipar, a esta distância, a composição do Parlamento, mas não me surpreenderia se surgissem novas formações, caso do MPT e do Livre, reforçando assim a diversidade parlamentar e acentuando o declínio dos partidos históricos. Será a solução possível, num sistema político a caminhar para uma geografia mais instável. Dificilmente durará a legislatura. É a vida.

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publicado às 22:25

Europeias: segunda leitura

por Paulo Gorjão, em 26.05.14

Recalibrando as primeiras impressões, em jeito de recapitulação retiro as seguintes impressões do dia eleitoral de ontem.

1. Vitória indiscutível do PS, mas uma vitória de Pirro. António José Seguro ganha as europeias, mas politicamente nada consegue fazer com o resultado que alcançou. No dia seguinte, ainda que tenha ganho, é a sua liderança que está fragilizada. O PS ganhou mas é um partido cada vez mais intranquilo e que pressente um desaire em 2015. Uma vitória com sabor a derrota, mas o suficiente para Seguro sobreviver?

Creio que sim.

2. PSD e CDS, em contrapartida, têm uma derrota com sabor a vitória. Os militantes e simpatizantes do Governo tinham mais motivos para celebrar do que os do PS. Começa-se, finalmente, a acreditar - como aqui e noutros locais tenho repetido desde há muito muito tempo - que nada está escrito nas estrelas e que, com um empurrãozinho das circunstâncias, a vitória nas legislativas de 2015 estará ao alcance do PSD. Veremos, no entanto, se PSD e CDS concorrem juntos em 2015. Essa parece-me ser uma questão que ficou em aberto nestas europeias. Não creio que o venham a fazer, mas em todo o caso essa questão não está ainda formalmente resolvida.

3. O PCP obteve um grande resultado, nada a acrescentar.

4. O MPT é a grande surpresa da noite eleitoral e a grande incógnita para o futuro. Admito que Marinho e Pinto queira ir a jogo nas próximas legislativas. Nada será igual. Nas legislativas o voto de protesto será filtrado e o eleitorado prestará atenção ao que diz, o que desta vez não foi manifestamente o caso. Que repercussões é que isso terá? Não sei. O MPT tanto pode ter uma expressão legislativa residual, como pode vir a ser a muleta que o PS necessita para formar maioria absoluta. Não acredito nesta última hipótese, mas em todo o caso ela não pode nem deve ser ignorada.

5. Quantitativa e qualitativamente, o BE é o grande derrotado da noite eleitoral. O seu calvário veio para ficar. Esta liderança está morta, mas não sei se as devidas ilações políticas serão retiradas de imediato.

6. Rui Tavares é outro dos derrotados das europeias, mas a porta fica entreaberta para uma eventual eleição nas próximas legislativas.

7. Tirar muitas ilações destes resultados para as legislativas é um risco, não só tendo em conta a natureza específica destas eleições, mas também a abstenção, os votos nulos e os brancos.

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publicado às 15:50

Europeias: primeira leitura

por Paulo Gorjão, em 25.05.14

Uma primeira leitura com base nas projecções às 20 horas, caso se confirmem.

1. A noite eleitoral acaba ainda antes de começar.

2. O PS tem uma vitória curta que não é um desastre para a liderança, mas que também não lhe permite tirar grandes vantagens. De certa maneira, fica tudo adiado. Veremos, em todo o caso, se o resultado não gera ondas de choque. Julgo que não.

3. O PSD e o CDS têm uma derrota que está longe de ser um desastre. Passaram um teste difícil num contexto adverso. De certa forma é uma derrota que substantivamente acaba por ser uma pequenina vitória.

3. Um bom resultado para o PCP, um dos vencedores da noite.

4. O MPT de Marinho e Pinto é outro dos vencedores.

5. O BE é o grande derrotado da noite. Noutro partido o resultado não poderia deixar de ter consequências políticas para a liderança.

6. A mesma leitura em relação ao Livre de Rui Tavares, i.e. outro dos derrotados da noite eleitoral.

7. Abstenção em linha com o que se esperava.

Naturalmente, a leitura muda se as previsões não se confirmarem, como é óbvio.

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publicado às 20:15

"Não votar é abdicar de um direito", disse ontem o Presidente da República. Não votar, na prática, é abdicar do "direito de participar nas escolhas", acrescentou. Não discordando em absoluto do Presidente, em todo o caso importa salientar que a outra face da moeda é que não votar, de acordo com o nosso sistema político, é também um direito. A abstenção é uma opção tão legítima como ir votar. Podemos discutir a sua utilidade, mas esse é um outro debate.

Sempre entendi que o juízo valorativo que se faz da abstenção é um caminho perigoso. É dar um valor a uma opção que ela não tem, ainda por cima com efeitos perversos. Qualquer cidadão tem o direito de se abster, independentemente das suas razões. Mas a taxa de abstenção nunca e em circunstância alguma deve diminuir o valor dos votos expressos em urna. Quem valoriza a abstenção é isso que está a fazer. É por isso que não há nem pode haver uma relação de causalidade entre a abstenção e a legitimidade dos resultados. Vote quem quer ir votar; não vote quem não o quer fazer. No final contam os votos expressos em urna, com total legitimidade independentemente do valor da abstenção.

Nos últimos 20 anos, votei em diferentes partidos, votei em branco, ou pura e simplesmente não votei. Tudo opções igualmente legítimas.

Uma democracia consolidada não precisa de votações em massa, ou de vitórias esmagadoras, para confirmar ou renovar a sua legitimidade. Deixemos para os norte-coreanos aquilo que é dos norte-coreanos e de outros regimes autoritários. Esses, sim, precisam de votações em massa e de vitórias esmagadoras.

Não quer ir votar?

Não vá. Eu irei, mas aceito como inteiramente legítima a opção contrária. O que não aceito é que diminuam o valor do meu voto em função do valor da abstenção.

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publicado às 14:10

Seguindo os conselhos...

por Paulo Gorjão, em 24.05.14
...de Marcelo Rebelo de Sousa - é por esta e por muitas outras que ele gostaria muito de ter sido muita coisa, mas acabou quase sempre por morrer na praia - amanhã irei votar a pensar na eventual, ainda que improvável, escolha de Jean-Claude Juncker. O resto pouco ou nada me interessa e motiva.

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publicado às 19:10

Reconhecer o óbvio

por Paulo Gorjão, em 22.05.14
Camilo Lourenço reconhece hoje num artigo publicado no Negócios aquilo que ninguém, sobretudo nos jornais económicos, tem muita vontade seguramente de debater publicamente. Os jornais e os jornalistas de economia falharam e têm vindo a falhar na sua função. Como diz Lourenço, não fizeram o trabalho de casa, como ficou evidente com o prospecto relativo ao aumento de capital do BES. Como é possível que nada daquilo, ou muito muito pouco, tenha sido noticiado? O que falhou e porque falhou?
Há muito tempo que me parece existir uma excessiva proximidade entre a elite do jornalismo de economia e as direcções dos bancos. O sinal mais óbvio disto é a vasta lista de conferências em que todos participam em tom de amena cavaqueira. Naturalmente, esta excessiva proximidade corre o risco de retirar objectividade aos jornalistas e é um factor potencialmente gerador de inibição, nomeadamente no domínio da investigação.
Como refere Camilo, o BES é apenas o fim da linha de um vasto leque de exemplos, de natureza diferente, mas que abarca também o que sucedeu com o BCP, BPN e BPP.
O problema, refira-se, não é exclusivo da relação entre jornalistas de economia e banca. Na minha perspectiva abarca todo o PSI-20. Ora, se o PSI-20 é o grosso das notícias dos jornais de economia e se eles falham em matérias tão importantes, a pergunta que se coloca a seguir é se valem o preço de capa, do ponto de vista do leitor, nomeadamente do pequeno investidor bolsista. Valem?

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publicado às 10:50

Bens perecíveis

por Paulo Gorjão, em 21.05.14
Esqueçam as flores, as plantas, as vacinas e os soros, ou os produtos comestíveis em geral. Não há bem mais perecível do que a palavra. O teste do tempo é cruel com a palavra. Sim, a idade está a tornar-me cada vez mais cínico.

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publicado às 00:51

Guiné-Bissau: José Mário Vaz

por Paulo Gorjão, em 20.05.14

Como já aqui tinha referido, ontem em particular foi um dia muito complicado para a CNE da Guiné-Bissau, com pressões militares que deram nas vistas e que, muito claramente, visavam condicionar o anúncio oficial dos resultados. Ontem era já claro que tudo parecia apontar para a derrota de Nuno Nabiam, candidato apoiado pelos militares, o que se confirmou hoje: José Mário Vaz (JOMAV) é o novo Presidente.

A Guiné-Bissau prepara-se, deste modo, para regressar finalmente à legalidade constitucional. A JOMAV e a Domingos Simões Pereira o mínimo que se pode fazer é desejar boa sorte porque o desafio que têm pela frente é enorme.

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publicado às 16:13

Guiné-Bissau: nada está ainda decidido

por Paulo Gorjão, em 19.05.14

Decorreu no passado fim de semana a segunda volta das eleições presidenciais na Guiné-Bissau, opondo José Mário Vaz (JOMAV), candidato apoiado pelo PAIGC, a Nuno Nabiam, candidato que teve o apoio, entre outros, do PRS e dos militares. Nada a apontar de relevante sobre o dia da votação. No essencial, as eleições foram livres e justas.

O problema está no dia seguinte e em particular no apuramento dos resultados. Dito de outra maneira, o caminho da normalização constitucional ainda não terminou. De Bissau chegam ecos credíveis de enormes pressões sobre a Comissão Nacional de Eleições (CNE), como sempre com os militares metidos ao barulho. A situação exige, por isso, atenção redobrada da parte da comunidade internacional - CEDEAO, CPLP, ONU, UA, UE, et al. - e o devido apoio no sentido de se assegurar o retorno à normalidade constitucional em total respeito pelos resultados alcançados nas urnas.

A pressão dos militares indicia que Nabiam poderá ter perdido a segunda volta. Veremos. O essencial, neste momento, é assegurar o respeito pelos resultados da segunda volta e desse modo garantir a normalização constitucional. Importa por isso dar todo o apoio à CNE e às novas autoridades que estão a emergir das eleições legislativas e presidenciais. Naturalmente, importa deixar bem claro junto dos militares, de uma vez por todas, que a tão proclamada tolerância zero em relação a golpes de Estado desta vez é mesmo para ser levada a sério.

Seria dramático se, de novo, a Guiné-Bissau fosse notícia pelas piores razões.

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publicado às 23:25

Passos Coelho e a quantitative easing

por Paulo Gorjão, em 16.05.14

A sorte de Pedro Passos Coelho é que o assunto não vale um voto e ninguém lhe liga muita atenção. Mas quase arriscava dizer que tenho a certeza que, daqui a algum tempo, o primeiro-ministro será apanhado em contramão nesta sua defesa de uma posição conservadora para o BCE na questão da política de quantitative easing (QE). Passos Coelho manifesta a sua discordância em relação a esse instrumento - ver entrevista original - mas a continuar o risco de deflação e Mario Draghi dificilmente deixará de dar início a uma política de QE.

Acresce que a alternativa que formula, entre o crédito às PME e uma política de QE não corresponde a prioridades inconciliáveis ou incompatíveis entre si, motivo adicional para não se perceber esta manifestação pública de oposição.

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publicado às 21:55

Sócrates: união e passado

por Paulo Gorjão, em 16.05.14

José Sócrates deverá descer o Chiado com António José Seguro, Francisco Assis e António Costa no último dia da campanha (Público). Eis o tão aguardado sinal de unidade. Afinal, o PS tinha de mostrar que estava voltado para o futuro mas, ao mesmo tempo, que não tinha receio de assumir o seu passado.

Ultrapassadas as hesitações e as dúvidas, eis portanto o sinal de união e o assumir do passado. Mas com moderação, por favor. O PS está unido mas não se abuse que o partido não aguenta tanta união. Uma participação de Sócrates na campanha é mais do que suficiente. Serviços mínimos, digamos. E quanto a assumir o passado, idem...

Os admiradores de José Sócrates não se cansam de realçar que ele hoje tem uma imagem muito positiva. Vamos admitir que sim, ainda que, no mínimo, essa leitura seja pouco consensual. Se tem uma imagem tão positiva, como afirmam, nesse caso não se percebe por que motivo o PS utiliza apenas uma vez um activo desse calibre...

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publicado às 21:35

BANIF: o atraso [3]

por Paulo Gorjão, em 15.05.14

Corrijam-me se estiver errado, mas o anúncio do aumento de capital reconhece implicitamente - enfim, explicitamente... - que o BANIF não conseguiu concretizar com êxito a sua estratégia preferencial. De atraso em atraso, pelo meio com o episódio da Guiné-Equatorial - ainda em aberto? -, esta é a derradeira possibilidade que permite cumprir os compromissos assumidos com o Estado português. Isto dito, sejamos claros. Jorge Tomé não conseguiu encontrar investidores institucionais de referência, apesar dos atrasos e dos esforços nas mais diversas latitudes e longitudes.

Se tudo correr bem, o BANIF completará o aumento de capital, mas ficará muito longe de ter uma estrutura accionista estabilizada. Mais do que um ponto de chegada, o aumento de capital é um balão de oxigénio adicional que permite ganhar algum tempo. Apenas e só isso.

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publicado às 19:05

No PSD as próximas eleições presidenciais há muito que começaram a mexer nos bastidores. Durão Barroso, Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa são os nomes mais citados. A moção de Pedro Passos Coelho, apresentada no último congresso do partido, contribuiu para dar relevância ao tema, digamos que sem muita subtileza. É ainda cedo para dizer quem será o candidato que contará com o apoio do PSD, mas é muito provável que seja um dos três acima mencionados. Qualquer outro estará condenado a perder.

No PS, até agora, o processo parecia mais atrasado, ou mais dormente. Isto dito, já por diversas vezes referi que me parecia não ter qualquer sentido alimentar a ilusão de que Carvalho da Silva poderia contar com o apoio socialista. O PS apoiará sempre um candidato oriundo das suas fileiras. O nome que até agora tinha sido mais citado era António Costa. Esta semana, porém, foi notícia que António Guterrespela primeira vez, admitiu essa possibilidade. Sem surpresas, os apoios não se fizeram esperar. Não sei como evoluirá o processo, mas tenho a certeza que o PS tudo fará para evitar repetir os desastres das últimas duas campanhas eleitorais para a Presidência da República. E tal como acontece com o PSD, também no caso do PS diria que ainda é cedo para dizer quem será o candidato que contará com o apoio do partido, mas é muito provável que seja um dos dois acima mencionados. Qualquer outro estará condenado a perder.

Muita água vai correr ainda por debaixo das pontes, pelo que não tem qualquer sentido estar a fazer previsões. Mesmo a tentativa de antecipar cenários é particularmente difícil a esta distância. Dito isto, na minha apreciação pessoal e subjectiva, António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa são, de longe, os melhores candidatos.

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publicado às 16:05

A credibilidade da CNE não interessa?

por Paulo Gorjão, em 14.05.14

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) é uma daquelas instituições de que só se ouve falar na altura dos actos eleitorais. Não creio que, regra geral, os portugueses tenham uma opinião negativa da CNE. Em bom rigor, a maioria dos cidadãos nem terá uma ideia muito precisa sobre as suas funções. Nada disso é particularmente grave. Da CNE esperamos que arbitre conflitos relacionados com os actos eleitorais o mais objectiva e neutralmente possível.

No entanto, parece haver quem esteja interessado em descredibilizar a CNE, repito, uma instituição de que ouvimos falar muito esporadicamente, mas que pode, em circunstâncias extremas, assumir uma relevância acrescida. A votação que o Público relata - bom trabalho do Público, refira-se - revela uma lamentável instrumentalização partidária desta instituição.

A CNE é constituída por um presidente, designado pelo Conselho Superior de Magistratura (CSM), seis membros eleitos pela Assembleia da República e três designados por departamentos governamentais. Previsível mas infelizmente, os seis membros escolhidos pelo Parlamento votaram em total sintonia com os interesses dos seus partidos. Os quatro votos - do representante do CSM e dos departamentos governamentais - acabaram por ser decisivos. Todos votaram no mesmo sentido. Quanto aos membros dos partidos, repito, a sua orientação de voto correspondeu ao seu partido de origem.

Será quase escusado dizer que esta votação é uma machadada na própria credibilidade da CNE, cuja imparcialidade e neutralidade fica posta em causa. Tenho dificuldade em perceber quem beneficia com isto. A democracia portuguesa não é certamente.

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publicado às 18:25

Um democrata

por Paulo Gorjão, em 13.05.14

"O espectáculo da campanha vai ser triste, mas o que será mais desolador será ver a quantidade de votos que os partidos do Governo vão, apesar de tudo, recolher, ilustrando as limitações da democracia" (Público, 13.5.2014).

José Vítor Malheiros é um democrata, digamos, com uma visão especial do modo como funciona o regime democrático. Inspirado por Brecht, preocupado e irritado com a hipótese eventual de mais à frente não se conseguir mudar de Governo, José Vítor Malheiros até já estaria disponível para mudar de povo, dado que este parece ser tão estúpido. Malditas "limitações da democracia", para utilizar as suas palavras sábias. A puta da democracia nem sempre elege os governos que eu quero. O povo, estúpido, por vezes não percebe aquilo que é bom para si próprio. Só há uma solução. Se o povo, estúpido, falha na escolha, nesse caso urge corrigir os processos, que é como quem diz as limitações da democracia. No fundo, no fundo, é preciso ter muito cuidado com o sufrágio universal e o voto directo e secreto.

Por mim, um primeiro passo no sentido certo seria acabar com o voto secreto - em vez disso o voto seria exercido de bracinho no ar - para que a malta pudesse identificar quem são, afinal, os estúpidos que se escondem no meio do povo. Enfim, quanto ao resto, olhem para a História que ela explica onde é que isto vai desembocar. Um democrata e um cidadão tolerante, este José Vítor Malheiros.

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publicado às 14:07

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